Como trabalhar com LLMs de forma eficiente e profissional

Tecnologia

Como trabalhar com LLMs de forma eficiente e profissional


1. Introdução e Contexto

 

Esta apostila é baseada na palestra e workshop ministrados por Matt Pocock, professor e especialista em TypeScript, no evento de conferência documentado no vídeo de referência. O tema central é que, apesar de a IA representar um novo paradigma tecnológico, os fundamentos da engenharia de software que sempre funcionaram para humanos também funcionam de forma excelente ao trabalhar com IA.



 

1.1 A Tese Central

A ideia chave da palestra é:

        Todos acreditam que a IA é um paradigma completamente novo

        Esquecemos que os fundamentos da engenharia de software continuam essenciais

        Essas práticas clássicas funcionam muito bem quando aplicadas a LLMs

 

Citação do autor

"Quando falamos sobre IA como um novo paradigma, esquecemos que os fundamentos da engenharia de software - as coisas que são cruciais para trabalhar com humanos - também funcionam muito bem com IA."

 

1.2 Público e Contexto

A palestra foi apresentada para um grupo de desenvolvedores com diferentes níveis de experiência com IA, com perguntas e demonstrações ao vivo. O workshop tem duração de aproximadamente 2 horas e inclui exercícios práticos.

 

2. Restrições Fundamentais dos LLMs

 

Antes de entrar nas técnicas práticas, é essencial compreender as limitações técnicas dos modelos de linguagem grandes (LLMs). O autor identifica duas restrições principais que moldam toda a abordagem de desenvolvimento com IA.

 

2.1 As Duas Restrições Principais

 

Restrição

Descrição

Zona Inteligente / Zona Burra

LLMs degradam em qualidade conforme a janela de contexto cresce

O Efeito Memento

LLMs não possuem memória entre sessões; resetam ao estado inicial

 

Compreender essas duas restrições é o ponto de partida para toda a metodologia apresentada neste workshop.


 

3. O Problema do Contexto: Zona Inteligente e Zona Burra

 

Este conceito, atribuído a Dex Hardy da empresa Human Layer, é fundamental para trabalhar com LLMs de forma eficiente.

 

3.1 Como Funciona a Atenção nos LLMs

Cada vez que você adiciona um token a um LLM, o número de relações de atenção cresce de forma quadrática - semelhante ao número de jogos em uma liga de futebol conforme novas equipes são adicionadas. Isso ocorre porque há relações de atenção de cada token para todos os outros, envolvendo posição e significado individual de cada token.

 

3.2 Definição das Zonas

 

Zona

Característica

Zona Inteligente

Início da conversa, contexto limpo, LLM trabalha com máxima eficiência

Zona Burra

Contexto sobrecarregado (~100K tokens), LLM começa a tomar decisões ruins

 

Marcador prático

O autor usa ~100K tokens como referência para o início da zona burra, independentemente do tamanho total da janela de contexto (1 milhão ou 200K). Sempre monitore o contador de tokens.

 

3.3 Estratégias para Trabalhar na Zona Inteligente

        Dimensione as tarefas para caber dentro da zona inteligente

        Não deixe a IA 'morder mais do que pode mastigar'

        Mantenha o prompt de sistema (system prompt) pequeno e enxuto

        Evite acumular sedimentos desnecessários no contexto

 

Referência clássica

O autor cita Martin Fowler (Refactoring) e The Pragmatic Programmer - livros que já ensinavam: 'Não assuma mais do que você pode executar. Mantenha suas tarefas pequenas para que você, como desenvolvedor humano, não entre em pânico e caia na zona burra.'

 

3.4 Fases de uma Sessão LLM

Toda sessão com um LLM passa pelas mesmas fases:

        Prompt de sistema (system prompt) - sempre presente no contexto

        Fase exploratória - o agente explora o código-base

        Implementação - escrita efetiva do código

        Testes - loops de feedback e validação

 

3.5 Compactação vs. Limpar o Contexto

Quando você se aproxima do limite, existem duas opções:

        Compactação (Compacting): resume toda a conversa em um histórico menor e continua

        Limpar (Clear): apaga tudo e volta apenas ao prompt de sistema

 

O autor prefere claramente a segunda opção (limpar), pois:

        O estado inicial é sempre o mesmo - previsível e consistente

        Compactações acumulam 'sedimentos' que degradam a qualidade

        Reiniciar permite trabalhar sempre na zona inteligente


 

4. Os LLMs como o Personagem de Memento

 

A segunda restrição fundamental é que os LLMs são como o protagonista do filme Memento: eles esquecem tudo e voltam ao estado base a cada nova sessão. Não há persistência de memória entre conversas.

 

Isso significa que toda estratégia de desenvolvimento com IA precisa considerar:

        Não confiar na memória do LLM entre sessões

        Criar documentos e artefatos externos que persistam o contexto

        Projetar fluxos que funcionem bem com contexto recém-inicializado

        Enxergar o reinício como uma vantagem (sempre começa no melhor estado)

 

Insight-chave

Em vez de tentar compensar o esquecimento do LLM, o autor abraça essa característica e projeta seu fluxo de trabalho para tirar vantagem dela: trabalhar sempre com contexto limpo significa trabalhar sempre na zona inteligente.


 

5. O Fluxo de Desenvolvimento com IA

 

Com base nas restrições entendidas, o autor apresenta um fluxo de desenvolvimento estruturado que maximiza a eficiência do LLM enquanto mantém o controle humano nos pontos críticos.

 

5.1 Visão Geral do Fluxo

 

Fase

Atividade

1. Alinhamento

Sessão de interrogatório (Grill Me) - HUMANO no loop

2. Documentação

Criação do PRD (Product Requirements Document) - HUMANO revisa

3. Planejamento

Criação do Kanban Board com issues paralelas - HUMANO valida

4. Implementação

Loop AFK com agentes (Ralph Loop) - IA trabalha sem supervisão

5. QA e Review

Testes, code review, iterações - HUMANO impõe padrões e gosto

 

5.2 Tarefas Humanas vs. Tarefas AFK

O autor distingue claramente dois tipos de tarefas:

 

Tipo

Descrição

Human-in-the-loop

Requerem presença humana: planejamento, alinhamento, QA

AFK (Away From Keyboard)

Podem ser delegadas totalmente à IA: implementação

 

Analogia: turno do dia e da noite

O planejamento é o turno do dia - o humano organiza tudo. A implementação é o turno da noite - a IA trabalha AFK enquanto o humano descansa ou faz outras coisas.

 

5.3 Crítica ao Movimento 'Specs to Code'

O autor critica fortemente a abordagem de 'especificações para código' que é popular atualmente:

        Consiste em escrever especificações detalhadas e simplesmente transformá-las em código via IA

        Se algo der errado, você edita a especificação, não o código

        É essencialmente 'vibe coding' com outro nome

        O autor testou e afirma que simplesmente não funciona

 

O motivo pelo qual falha:

        Você precisa manter controle sobre o código

        Você precisa entender o que está dentro do código

        Você precisa moldar o código porque ele é o seu campo de batalha


 

6. Fase 1 - O Interrogatório (Grill Me Skill)

 

A primeira fase do fluxo é o que o autor chama de 'Grill Me' (me interrogue). Esta é a etapa de alinhamento entre o desenvolvedor e o LLM antes de qualquer escrita de código.

 

6.1 O Problema de Alinhamento

O principal problema ao trabalhar com IA no desenvolvimento de software é o misalignment - quando o desenvolvedor e o LLM têm entendimentos diferentes sobre o que está sendo construído. O 'Grill Me' resolve isso.

 

6.2 Como Funciona

O skill 'Grill Me' é uma instrução pequena e concisa que instrui o LLM a:

        Fazer perguntas agressivas e diretas sobre a ideia sendo desenvolvida

        Continuar questionando até ter um entendimento completo do problema

        Explorar edge cases, decisões técnicas e escopo

        Criar um 'conceito de design compartilhado' entre humano e IA

 

Resultado do Grill Me

Após uma sessão de interrogatório, o autor usa ~25K tokens. Todo esse conteúdo é 'ouro' - um alinhamento profundo sobre o que será construído. Esse contexto é então destilado em documentos permanentes.

 

6.3 Por Que Não Usar Ferramentas como Taskmaster ou Spec Kit?

O autor foi questionado sobre frameworks alternativos. Sua posição:

        Com tantas ferramentas surgindo e mudando, você precisa ser dono do seu planejamento

        Estudantes que adotam stacks de terceiros sem entendê-las ficam presos quando algo dá errado

        Controle total da sua stack = capacidade de corrigir problemas

 

6.4 Aplicação em Equipes

Para equipes maiores, o Grill Me pode ser usado em par ou em grupo:

        Pair programming com IA: um terceiro personagem que questiona incansavelmente

        Mob programming com IA: múltiplos humanos e a IA na mesma sessão

        As decisões cruciais precisam de humanos; a IA facilita o processo


 

7. Fase 2 - O Documento de Requisitos (PRD)

 

Após o interrogatório, o próximo passo é transformar o alinhamento alcançado em um documento permanente: o Product Requirements Document (PRD).

 

7.1 A Função do PRD

O PRD serve como o 'documento de destino' - descreve para onde estamos indo. Diferente dos planos de implementação, o PRD define o estado final desejado.

 

7.2 Estrutura Recomendada do PRD

 

Seção do PRD

Conteúdo

Declaração do Problema

Qual problema o usuário enfrenta

Solução Proposta

Como resolver o problema

User Stories

Lista de histórias de usuário (~15-20 itens)

Decisões de Implementação

Escolhas técnicas feitas

Decisões de Testes

Estratégia de testes

Módulos Propostos

Quais partes do código serão modificadas

Fora do Escopo

O que NÃO será feito nesta iteração

 

7.3 Módulos no PRD - O Código Sempre em Mente

Um diferencial importante da abordagem: ao criar o PRD, já se pensa nos módulos de código que serão afetados. Isso garante que o processo nunca ignore o código-base real.

        Identifica os módulos que serão criados ou modificados

        Define as interfaces que cada módulo vai expor

        Classifica dependências: locais, substituíveis, banco de dados de teste

 

7.4 Deve-se Revisar o PRD?

Surpreendentemente, o autor afirma que geralmente NÃO lê o PRD gerado:

        LLMs são excelentes em sumarização - isso já está garantido

        Após a sessão de interrogatório, o alinhamento já existe

        Revisar seria apenas verificar a capacidade de sumarização do LLM

 

7.5 Doc Rot - Cuidado com Documentação Antiga

O autor alerta sobre um perigo chamado 'doc rot': documentação antiga que permanece no repositório e contamina o contexto do agente com informações desatualizadas.

Boa prática

Após a implementação ser concluída, feche ou arquive o PRD. Se usar GitHub Issues, marque como fechado. Não deixe documentação de especificação desatualizada flutuando no repositório, pois o LLM pode encontrá-la e usá-la como verdade.


 

8. Fase 3 - O Kanban Board e Paralelismo

 

Com o PRD definido, o próximo passo é transformar os requisitos em issues (tickets) independentes que podem ser trabalhados em paralelo por múltiplos agentes.

 

8.1 De Plano Sequencial para Grafo Acíclico Dirigido

A maioria dos desenvolvedores usa planos sequenciais em fases (fase 1, fase 2, fase 3). O autor argumenta que isso limita o paralelismo:

        Plano sequencial: apenas um agente pode trabalhar por vez

        Kanban com dependências: múltiplos agentes podem trabalhar em paralelo nas tarefas sem bloqueio

 

A estrutura ideal é um Directed Acyclic Graph (DAG) - um grafo acíclico dirigido onde as dependências entre tarefas são explícitas e apenas o necessário é sequencial.

 

8.2 Vertical Slices vs. Horizontal Slices

Um conceito central na criação dos issues é preferir fatias verticais:

 

Tipo de Slice

Descrição

Horizontal (BAD)

Implementa uma camada por vez (ex: só o serviço, só o banco)

Vertical (GOOD)

Implementa uma funcionalidade completa de ponta a ponta

 

Exemplo de vertical slice

Em vez de 'criar o serviço de gamificação' (horizontal), prefira 'mostrar pontos ganhos por conclusão de aula no dashboard' - isso toca no schema, no serviço e no frontend simultaneamente, resultando em algo visualmente testável.

 

8.3 Características dos Issues Ideais

        Independentes - podem ser pegos por qualquer agente

        Com dependências explícitas mapeadas

        Com critérios claros de conclusão

        Em fatias verticais (mostram resultado visível ao final)

        Organizados como um grafo, não uma lista linear

 

8.4 Ferramentas para o Kanban

O autor usa GitHub Issues como ferramenta principal, mas menciona que arquivos locais em Markdown também funcionam para fins didáticos. Issues fechadas no GitHub ficam acessíveis mas com indicador visual de 'feito'.


 

9. Fase 4 - Implementação AFK (Loop Ralph)

 

Com o Kanban preparado, chega a fase onde o humano sai do loop e os agentes trabalham autonomamente. O autor chama isso de 'Ralph Loop'.

 

9.1 O Conceito Ralph

Baseado na ideia de 'Ralph Wiggum' como prática de software, o Ralph Loop funciona assim:

        Define-se um destino (PRD + issues)

        O agente faz uma pequena mudança de cada vez que o aproxima do destino

        O loop continua até que todas as tarefas estejam completas

 

Analogia com o loop

O autor compara ao raciocínio: se você tem fase 1, fase 2, fase 3, fase N... por que não ter apenas fase N? Um loop que continua até a conclusão.

 

9.2 Estrutura Técnica do Loop

O script (once.sh) que executa o loop faz o seguinte:

        Coleta todas as issues do backlog em arquivos Markdown

        Captura os últimos 5 commits do repositório

        Passa tudo para o Claude Code com modo de permissão automática

        O agente escolhe a próxima tarefa, implementa, e registra o resultado

 

9.3 Prioridades do Agente no Loop

O prompt do loop AFK define prioridades:

        1. Correções de bugs críticos

        2. Infraestrutura de desenvolvimento

        3. Tracer bullets (funcionalidades de ponta a ponta mínimas)

        4. Quick wins e refatorações

 

9.4 Modo Sequencial vs. Paralelo

O autor recomenda começar com o modo sequencial (um agente de cada vez) para ganhar familiaridade antes de partir para a paralelização.

 

Paralelização avançada

Com múltiplos agentes em paralelo, cada um trabalha em uma branch separada dentro de um sandbox Docker. Um agente 'planner' escolhe as tarefas sem bloqueio mútuo, agentes 'implementers' executam em paralelo, e um agente 'merger' consolida os resultados, resolvendo conflitos de tipos e testes.


 

10. Test-Driven Development (TDD) com IA

 

O TDD é apresentado como absolutamente essencial para obter o máximo dos agentes de IA. O autor afirma ter moldado toda a sua técnica em torno de fazer o TDD funcionar bem.

 

10.1 Red-Green-Refactor com IA

O ciclo clássico do TDD funciona assim:

        Red: Escreva um teste que falha (a funcionalidade ainda não existe)

        Green: Escreva o código mínimo para fazer o teste passar

        Refactor: Melhore o código mantendo os testes passando

 

10.2 Por Que a IA Escreve Testes Ruins Sem TDD

Sem TDD, a IA tende a 'trapacear':

        Escreve toda a implementação primeiro

        Depois escreve os testes para a implementação que já existe

        Os testes ficam acoplados à implementação, não à especificação

 

Com TDD, esse problema é muito mais difícil de ocorrer porque:

        O teste é escrito ANTES da implementação

        O código é instrumentado antes de ser escrito

        A ordem natural força testes baseados em comportamento

 

10.3 Loops de Feedback - O Teto da Qualidade

Os loops de feedback (rodar testes, verificar tipos) são essenciais para qualquer output razoável da IA:

 

Loop de Feedback

Propósito

npm run test

Verificar que a lógica de negócio funciona

npm run type-check

Garantir correção de tipos (TypeScript)

Feedback visual (QA)

Verificar que o resultado é visível e correto

 

Insight fundamental

Se você está recebendo outputs ruins do agente, frequentemente a solução é melhorar a qualidade dos seus loops de feedback. O teto da qualidade do output é determinado pela qualidade dos seus mecanismos de verificação.


 

11. Arquitetura de Código: Módulos Profundos vs. Rasos

 

Baseado no livro 'The Philosophy of Software Design' de John Ousterhout, o autor apresenta um conceito crucial para código que funciona bem com IA.

 

11.1 Módulos Rasos (Shallow Modules) - Evitar

Módulos rasos são caracterizados por:

        Muitos arquivos pequenos com poucas responsabilidades

        Interfaces complexas expondo muitas funções

        Dependências cruzadas difíceis de rastrear

 

Problemas com módulos rasos para IA:

        A IA precisa navegar manualmente por todo o grafo de dependências

        Difícil definir fronteiras de teste

        Mocks excessivos tornam os testes frágeis e sem sentido

 

11.2 Módulos Profundos (Deep Modules) - Ideal

Módulos profundos têm:

        Interface pequena e simples (poucos pontos de entrada)

        Muita funcionalidade encapsulada internamente

        Fronteiras de teste claras e naturais

 

Vantagens para IA:

        A IA entende facilmente o que o módulo faz pela sua interface

        Fácil envolver com um único teste abrangente

        Comportamento testável do exterior sem necessidade de mocks complexos

 

Comportamento natural da IA

Sem orientação, a IA naturalmente produz código com módulos rasos. É preciso orientá-la ativamente para criar módulos profundos, tanto no PRD (definindo as interfaces) quanto durante a implementação.

 

11.3 A Estratégia dos 'Gray Boxes'

O autor propõe uma abordagem mental para manter domínio sobre o código:

        Projete as interfaces dos módulos você mesmo

        Delegue a implementação interna para a IA

        Você não precisa saber todos os detalhes internos

        Você precisa saber o que cada módulo faz e como ele se comporta

 

Resultado: você mantém o senso do código-base enquanto preserva sua sanidade mental diante do volume de código gerado por IA.

 

11.4 A Habilidade 'Improve Codebase Architecture'

O autor demonstra uma skill que escaneia o código-base em busca de:

        Módulos que poderiam ser aprofundados

        Grupos de módulos relacionados que poderiam ser testados como uma unidade

        Lacunas de cobertura de testes

        Oportunidades de simplificação de interfaces


 

12. QA e Code Review com IA

 

A fase de QA é onde o desenvolvedor humano impõe seus padrões, gosto e julgamento ao código gerado pela IA.

 

12.1 A Importância do QA Humano

O autor observa que equipes que tentam automatizar tudo - incluindo planejamento, QA, pesquisa e protótipos - acabam com aplicações que:

        Carecem de gosto e qualidade

        Não funcionam como esperado

        São 'slop' (conteúdo de baixa qualidade sem julgamento)

 

O toque humano é essencial. QA não é apenas sobre bugs - é sobre impor os padrões e a visão do desenvolvedor.

 

12.2 Code Review na Zona Inteligente

Um insight técnico importante: fazer code review após uma longa implementação significa revisar na zona burra. A solução:

        Limpe o contexto antes de fazer code review

        Revise com o contexto em estado inicial (zona inteligente)

        O revisor terá mais capacidade de atenção e identificará mais problemas

 

12.3 Estratégia de Review

Processo recomendado pelo autor:

        1. Revisar primeiro os testes - verificar se estão testando coisas razoáveis

        2. Revisar o código - verificar se não está fazendo nada louco

        3. Fazer QA manual - testar visualmente o resultado

        4. Criar novas issues para problemas encontrados - alimentando o Kanban

 

Code Review pelo Agente

Para review automático: use um agente revisor separado com o contexto limpo, passando tanto o código quanto os padrões de codificação (push). O implementador pode consultar os padrões por pull quando necessário.


 

13. Padrões Push e Pull para Agentes

 

Para garantir que os agentes sigam os padrões de codificação e estilos do projeto, o autor distingue dois mecanismos complementares.

 

13.1 Push - Instrução Proativa

No padrão Push, você injeta informações diretamente no contexto do agente:

        Colocar regras no Claude.md ou em arquivos de configuração

        O agente sempre recebe essas instruções, independente da tarefa

        Ideal para padrões críticos que nunca devem ser ignorados

 

13.2 Pull - Informação sob Demanda

No padrão Pull, você disponibiliza informações que o agente pode consultar quando necessário:

        Skills (habilidades) armazenadas no repositório com cabeçalho descritivo

        O agente lê 'OK, agente, você pode puxar este arquivo quando precisar'

        Reduz o tamanho do contexto inicial

        Ideal para conhecimento especializado usado em contextos específicos

 

Mecanismo

Quando Usar

Push

Padrões críticos, regras de segurança, convenções sempre aplicáveis

Pull (Skills)

Conhecimento especializado, padrões de contexto específico

 

13.3 Aplicação em Code Review

Para code review automatizado, a estratégia é:

        PUSH os padrões de codificação para o agente revisor

        PULL os padrões para o agente implementador (ele pode consultar se tiver dúvida)

        O revisor precisa dos padrões ativamente; o implementador os consulta ocasionalmente


 

14. Sandcastle: Automação Avançada

 

Para demonstrar a paralelização completa, o autor apresenta o Sandcastle, uma biblioteca TypeScript que ele desenvolveu para orquestrar agentes em paralelo.

 

14.1 O Problema que Sandcastle Resolve

O autor não estava satisfeito com as opções existentes para executar agentes 'AFK'. Sandcastle oferece:

        Função run() que cria uma work tree em uma branch Git

        Sandbox em container Docker para cada agente

        Execução de prompts dentro desse ambiente isolado

        Paralelização simplificada de múltiplos agentes

 

14.2 Fluxo do Sandcastle

O processo completo:

        Um agente Planner analisa o backlog e escolhe tasks sem bloqueios mútuos

        Para cada issue, cria um sandbox e executa um agente Implementer

        Se commits foram criados, um agente Reviewer faz code review

        Um agente Merger consolida as branches, resolvendo conflitos de tipos e testes

 

14.3 Modelo de IA por Função

O autor usa modelos diferentes por tipo de tarefa:

Função

Modelo

Implementação

Claude Sonnet (rápido e eficiente)

Code Review

Claude Opus (maior capacidade de análise crítica)

 

Repositório open source

O autor disponibiliza o Sandcastle publicamente. Quem quiser aprofundar a paralelização de agentes pode consultar o código-fonte para aprender mais.


 

15. Princípios e Boas Práticas - Resumo Final

 

O autor encerra com uma síntese dos principais aprendizados. Esta seção consolida todos os conceitos em princípios acionáveis.

 

15.1 Os 10 Princípios Fundamentais

 

        1. Conheça a Zona Inteligente

Monitore o contador de tokens em toda sessão. Nunca deixe o contexto crescer ao ponto de entrar na zona burra. Limpe o contexto regularmente ao invés de compactar.

 

        2. Abrace o Esquecimento da IA

Projete seu fluxo para funcionar com contexto sempre limpo. Isso é uma vantagem, não uma limitação: você sempre começa no melhor estado possível.

 

        3. Alinhe Antes de Implementar

Nunca delegue código sem antes executar uma sessão de interrogatório (Grill Me). O custo do realinhamento depois é sempre maior do que o custo do alinhamento antes.

 

        4. Mantenha o Código em Mente

Nem durante o planejamento você pode ignorar o código. Pense em módulos, interfaces e arquitetura desde o primeiro momento.

 

        5. Prefira Vertical Slices

Cada issue deve resultar em algo visível e testável de ponta a ponta. Evite 'camadas de bolo' (horizontais) que só mostram resultado depois de muitas implementações.

 

        6. TDD é Inegociável

A IA sem TDD tende a escrever testes ruins ou a trapacear. Com TDD, a ordem natural força melhores práticas e gera código que a IA pode verificar autonomamente.

 

        7. Melhore Seus Loops de Feedback

A qualidade do seu código gerado por IA é limitada pela qualidade dos seus mecanismos de verificação. Invista em testes bons, type checking e verificações automáticas.

 

        8. Módulos Profundos, Não Rasos

Oriente a IA a criar módulos com interfaces pequenas e muita funcionalidade interna. Projete as interfaces você mesmo; delegue as implementações.

 

        9. QA é Onde Você Impõe Seu Gosto

Não tente automatizar tudo. A fase de QA é onde o julgamento humano, a experiência e o senso estético são aplicados. Sem isso, o resultado é 'slop'.

 

        10. Leia os Livros Clássicos

A recomendação final do autor: compre e leia os livros clássicos de engenharia de software (Martin Fowler - Refactoring, The Pragmatic Programmer, A Philosophy of Software Design). Eles codificam práticas que funcionam igualmente bem com humanos e com IA.

 

15.2 O Fluxo Completo em uma Visão

 

Etapa

Responsável

1. Ideia inicial

Humano

2. Grill Me (alinhamento)

Humano + IA (interativo)

3. PRD (documento de destino)

IA gera, Humano valida

4. Kanban (issues paralelas)

IA gera, Humano valida

5. Implementação (Loop AFK)

IA trabalha autonomamente

6. QA + Code Review

Humano + IA (revisão)

7. Iteração (novas issues)

Humano cria, ciclo repete

 

Reflexão final do autor

Este não é um compilador de especificações para código. Não é uma IA que simplesmente cospe código. É um processo intencional onde nos preocupamos com os módulos e com a forma do código-base. Usamos o interrogatório para garantir o máximo de alinhamento. Convertemos isso em issues paralelizáveis. Implementamos e fazemos QA e code review rigorosos, continuando a iterar.


 

Referências e Recursos

 

Livros Recomendados

        Refactoring - Martin Fowler

        The Pragmatic Programmer - David Thomas e Andrew Hunt

        A Philosophy of Software Design - John Ousterhout

 

Conceitos e Pessoas Mencionados

        Dex Hardy (Human Layer) - conceito de Zona Inteligente / Zona Burra

        Ralph Wiggum Loop - iteração contínua orientada a destino

        John Ousterhout - módulos profundos vs. rasos

 

Ferramentas e Recursos

        Claude Code - ferramenta principal usada no workshop

        Sandcastle - biblioteca TypeScript para paralelização de agentes (Matt Pocock)

        AI Hero - site do autor com artigos e dicas adicionais

        GitHub Issues / Kanban local - gestão de backlog para agentes

Fonte
https://www.youtube.com/watch?v=-QFHIoCo-Ko

Veja também

Mais Dicas